quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O Poema do Sabiá


Horácio Banolas de Figueiredo Paz

Ouvi, cá na cidade, a voz dolente
de um sabiá modulando uma poesia...
E recordei-me, então, lá da Campanha:
- Aguapé...Toropi...Santa Luzia...

Pois no seu canto simples - repassado
da mais recôndita emotividade -
pressenti que ele estava declamando
um poema de ausência e de saudade.

E quedei-me a cismar: - Que contingência
o teria levado à zona urbana?...
O teria induzido à convivência
para ele, infeliz, da vida humana?

Será que ele hoje está aqui morando
por um ato espontâneo? ou então veio
impelido por força soberana
que o exilou, sem dó, lá do seu meio?

E seguindo o seu cântico harmonioso,
procurei-o, em redor...até que, enfim,
dei com ele - vivendo - prisioneiro
num viveiro de aves de um jardim.

Sim! vivendo entre grades, tão somente
porque sendo Cantor - vive a cantar...
(Talvez...para atenuar horas de tédio
do tirano que o foi aprisionar...)

Prisioneiro o Cantor das alvoradas
e das tardes serenas, de Verão,
ele que veio ao mundo, livre...e livre
pensou sempre viver - no seu Torrão.

Mas porque dentre as grades inda vibra?
por que não fica, o pobre, a soluçar?
- Ah! já sei a razão por que ele canta:
porque vive da dor de recordar.

E fiquei refletindo: - Como a vida
das criaturas tem fases iguais...
Exemplo: a minha, e a do Sabiá que canta
pelas mesmas razões sentimentais...

Pelas mesmas razões por que sentimos,
sob um céu de horizontes limitados
- à média que os dias vão passando -
a nostálgica dor dos transplantados.

***

4 comentários:

Beth Muniz disse...

Lindo!!!
Tudo.
Lembrei-me da música: "Vou voltar, sei que ainda vou voltar..." Sabiá...
Um abraço.

Lu Nogfer disse...

Bom dia Maria!

Lindo poema!
Gostei muito daqui!

Um abraço.

Maria de Lourdes disse...

Olá Beth! Obrigada pelo comentário.E pela visita ao meu blog. Grande abraço querida!

Maria de Lourdes disse...

Olá Lu! realmente este poema é lindo demais, aliás tudo que se refere aos passarinhos são de encher a alma de emoção! Obrigada